Treinos e Provas // 23 abr 2014

Maratona de Santiago – parte 2

Autor Imagem Por Giselli Souza

Um dos meus maiores obstáculos pessoais desde os tempos da patinação, na adolescência, é lidar com a minha ansiedade. Por mais que eu treine, esteja preparada, com o treinador ao lado, sempre a “vozinha” do “não, vc não vai conseguir” me atormenta e me tira a fome, o humor e me faz ficar realmente de TPM – a tal da tensão pré-maratona.

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E era exatamente assim que eu estava. Bem tensa, ao ponto de ficar sem fome, jantar “forçada” um prato de macarrão e ir com as mãos geladas para a largada. A temperatura estava na casa dos 7 graus, nada tão frio como em Amsterdam, mas a minha tensão era tamanha, que só no km 15 foi que eu tirei as luvas.

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Já na concentração, a organização da prova se mostrava impecável. Com guarda-volumes separados em zonas de acordo com as distâncias, o acesso só era permitido aos atletas que estivessem com o número de peito correspondente: vermelho (10km), verde (21km) e preto (42km). Com muita música e festa, aos poucos, os atletas começavam a se dirigir para a largada, com uma forte névoa. Em homenagem às vítimas do terremoto, que deixou seis mortos, os organizadores pediram um minuto de silêncio. Logo em seguida, ao som de Guns n’ Roses, foi dada a largada ao gritos de CHI-CHI-CHI-LE-LE-LE.

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Km 1 ao 10

O clima frio era um convite para socar a bota desde o início. Seguindo a estratégia do meu treinador e das minhas outras duas maratonas, larguei em um ritmo confortável, com pace médio de 6min15s, fechando os primeiros 10km em uma hora. O clima gelado e os cachorros soltos eram a companhia no percurso. A cada 5km, um posto de hidratação com gatorade e água era disponibilizado aos atletas. Não dava para sentir muito a altimetria e durante todo esse primeiro percurso, o trajeto era totalmente plano.

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Km 21

O percurso alternava longas avenidas de Santiago com ruas bem arborizadas e forte participação do público. Com cartazes, gritos e muitas palmas, o público prestigiava os atletas. Um dos poucos banheiros que eu vi (está aí um ponto negativo da prova) era justamente no km 20. Eu estava tranquila em relação a isso, mas uma dor incômoda, na região do abdome, começou a aparecer. Pela minha estratégia, seria a partir do 21km que eu começaria a apertar o passo, justamente para fechar a segunda metade com um tempo inferior a primeira. Passei os 21km com 2h10min e a dor no abdome começava a me irritar.

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Km 25

A altimetria começava a pegar e mesmo não tendo nenhuma pirambeira, dava para sentir que estávamos subindo. A dor no abdome aumentava e com ela veio um enjoo. Na hora, não dava para saber se era enjoo ou dor de barriga, somente uma tontura e fraqueza que de tanto me irritar, me fez tomar a decisão de colocar o dedo na garganta e vomitar tudo. Aliviou na hora, mas em seguida veio uma baita fraqueza que me vez caminhar até o posto de hidratação no km 25. Joguei a esponja na cabeça, no pescoço e ao olhar a placa e perceber que “ainda” estava no km 25, bateu o desespero. As inclinações do percurso apareciam de forma sutil e felizmente não tinha nenhuma grande pirambeira.

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Km 35

Do km 25 ao Km 30 eu trotava e reclamava comigo mesma. “Como vc pode estar fazendo isso comigo depois de toda a preparação?”. Era um bate-papo “maluco”, mas lá ia a Giselli, tentando controlar as passadas para não cair de fraqueza. Devido ao enjoo, fui até o final da maratona só tomando água, pois até o cheiro do isotônico me enjoava. O fato é que o peso da maratona, por si só, mesmo inteira, começa a pegar aí. As pernas cansam, ficam duras, e aí não deu pra segurar e eu passei a caminhar.

Km 40

Não sei dizer exatamente por quantos minutos caminhei, mas lembro que toda a vez que eu tentava correr, as pernas doíam e aí eu lembrava de todo o meu esforço na musculação nas madrugadas adentro e comecei a chorar. Chorava de desespero de perceber que estava cada vez mais longe do meu objetivo de fechar a maratona abaixo de 4h30min e, principalmente, por estar tão acabada daquele jeito. Um filme passou na minha cabeça neste momento e aí eu só chorava. Lembrei da morte dos meus pais, da ausência do meu irmão na minha vida, dos momentos de alegria com o meu marido e me agarrei a isso para continuar. Doía tudo nessa hora.

Km 42 e a chegada

Várias chilenas se aproximaram de mim nestes momentos finais e me incentivaram com palavras de carinho. No km 41, ouvi um grito e lá estava a Mariana Saraiva, diva corredora de Porto Alegre, que de leitora do blog virou minha amiga e estava ali somente para me ver passar. Foi emocionante e confesso que não consegui falar nada a não ser dar dar a mão pra ela e continuar. Esses km 1,125km restantes foram só com o coração mesmo e na chegada eu chorava de alegria por não ter desistido e também de fraqueza, pois estava muito, muito cansada e fraca.

 Esse aí foi o  resultado oficial. Com choro, mas sem vela, bem acima do esperado, mas valeu cada minuto.

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As lições da maratona vcs conferem no próximo post…

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9 COMENTÁRIOS

    Stephanie disse:

    Eu disse e repito: te considero uma guerreira, por não ter desistido nem abandonado a prova. Só você sabe a superação que foi fazer esses 42km, mesmo indo contra a cabeça boa parte do tempo. E que ainda vai servir de inspiração pra muita gente – inclusive eu!

    Mônica disse:

    Carambaaaaaa, me emocionei e me senti inspirada com seu relato. Parabéns !!!! Vou fazer a meia do Rio em julho, mas lesionei o joelho e agora estou fazendo fisioterapia e parada com os treinos. Com isso, vou fazer a meia sem compromisso de tempo, o único compromisso será terminar. E vqv. Bj

    JAKMORAIS disse:

    A verdade seja dita, é difícil p qualquer um, para quem quer apenas completar vivo a maratona, para quem quer um tempo melhor, até mesmo para o Bolt deve ser difícil sempre ser obrigado a se superar. A diferença é a forma que agente encara. Você nos exemplifica que devemos continuar e com cabeça erguida. Imagina depois de uma prova tão dura como essa, hj vc continua treinando e sempre e sempre. Parabéns!!!

    Maiara disse:

    So vou dizer que chorei quando vc disse o que te passou pela cabeca enquanto vc chorava.
    Acho que essa maratona foi libertadora pra vc, querida Gi!
    Porque vc colocou tudo isso pra fora em forma de lágrima, naquela hora, hora e agora verbalizou.
    GO, Gi, GO!!!!!

    Filomena Prada disse:

    Parabéns Gi, essa maratona com certeza foi um divisor na sua vida,vc correu muito, 42Km em 4h54min!!!. Não cumpriu “sua” meta, mas te fez ver outros tantos Kms já passados na sua vida, e te levou mais longe ainda.Está mais fortalecida para os próximos Kms,caminhando ou correndo,5/10/15/21/42….Vivendo. Seja Feliz!!!! 🙂 bjs

    michelly disse:

    Aiinn, pode chorar? Gi, Parabéns! Numa próxima você vai bater sua meta. O importante é que você concluiu! ^^ Lembre-se que vc serve de inspiração pra muita gente e é bom ver depoimentos reais por aqui – ( Inclusive pra mim que to no rumo aos 10km) Na vida as vezes nem tudo sai como a gente quer, e nas corridas também! Parabéns e corre, menina!

    Carla disse:

    Gi, parabéns, vc é guerreira e foi até o fim e valeu a partilha, preciso muito ter atitude para seguir e emagrecer e vc é um grande exemplo, que podemos conseguir alcançar nossas metas. Vou lutar e sei que vou vencer. Abraços

    Juliana disse:

    Ai, Gi, o seu relato foi lindo, e a sua carinho de choro é de cortar o coração, mas vc CONCLUIU a prova, Diva! Vc correu 42 k num dia que não era pra quebrar seu recorde de tempo, mas o seu recorde de perseverança. E vc bateu! Parabéns! 😉

    Sayuri disse:

    Oi Gi.
    Primeiramente, PARABENS!! Você já está a frente de muita gente por correr uma maratona!!!! Eu também corri em santiago, mas na meia maratona. Minha primeira meia maratona!! E olha, admiro quem corre além dessa distancia, pois 21km já achei bastante. Não bastante somente para o corpo, mas para a mente. Realmente é um filme que passa na sua cabeça durante a prova. E o tempo todo na prova eu pensava: essa é minha única chance de dar o meu melhor, de mostrar que tanto treino intensivo valeu a pena. E não é fácil! Você chegar no km 10, que era o máximo que costumava correr e ver que ainda não chegou nem na metade da prova. Por isso te acho uma guerreira. Espero em breve quebrar a barreira e correr uma maratona! bjs

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